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Blefarite: o que é, sintomas e tratamentos

Blefarite: o que é, sintomas e tratamentos

Dra. Adriana Bonfioli assinatura

Blefarite é um termo geral que descreve uma inflamação nas margens palpebrais. Pode ser classificada em anterior (inflamação da lamela anterior da margem palpebral, ao redor dos cílios) e posterior (localizada na lamela posterior da margem palpebral, onde se abrem os ductos excretores das Glândulas de Meibomius.

É uma condição caracterizada por quadros de remissão e exacerbação (não existe cura estabelecida), muito comum dentre os pacientes que buscam atendimento oftalmológico. Varia entre casos leves a severos e pode, com o decorrer dos anos, acarretar deformidades e alterações importantes da estrutura e função palpebral, acometendo os olhos e a visão quando não controlada.

Causas

De forma didática, podemos esquematizar as prováveis causas de Blefarite em:

1. Infecciosas

  • Bacteriana – pode ser aguda ou crônica. A forma aguda é mais comumente causada pelo Staphylococcus aureus, que geralmente compromete outras estruturas, tais como a pele palpebral, os folículos ciliares ou as glândulas acessórias. A forma crônica pode ser provocada pelo S. aureus ou Staphylococcus epidermidis.
  • Viral – por molusco contagioso.
  • Parasitária – provocada pelo Demodex Folliculorum. Pode ser tanto anterior (região dos cílios), quanto posterior (Glândulas de Meibomius). A fisiopatogênese do processo inflamatório ocorre por ação direta do ácaro, ação de bactérias (o ácaro funciona como vetor) ou reação de hipersensibilidade.

2. Irritativas

Causadas pelos seguintes irritantes:

  • Físicos – poeira, vento, ar condicionado, frio, calor, radiações (climas quentes, processos industriais, cigarros, poluição etc), má higiene ou ainda pelo hábito de esfregar os olhos com as mãos, ou lenços.
  • Químicos – maquiagem, protetores solares, cremes cosméticos, alguns colírios, ácidos retinoico, bifenilos policlorados, gás mostarda entre outros.
  • Alergênicos – geralmente associados à dermatite de contato (mais comuns esmalte e maquiagem).

3. Secundárias às doenças sistêmicas e/ou disfunção das glândulas de Meibomius

A blefarite pode ser associada à:

  • rosácea;
  • dermatite seborreica;
  • psoríase;
  • ictiose;
  • atopia;
  • síndrome do cólon irritável;
  • colite ulcerativa;
  • transtorno da ansiedade generalizada;
  • síndrome da displasia ectodérmica anidrótica;
  • síndrome da ectrodactilia;
  • síndrome de turner;
  • síndrome do olho seco;
  • triquíase;
  • uso de determinadas medicações como Cetuximab e Isotretinoína (Roacutan®, Isotrex®), que tem sido relatada como causa comum.
  • disfunção das Glândulas de Meibomius: a função destas glândulas é produzir uma secreção que lubrifica as bordas palpebrais e impedir sua maceração quando em contato com a lágrima. Além disso, elas também a protegem de contaminações, mantêm a pele palpebral em estado hidrofóbico (prevenindo extravasamento lacrimal), retardam a evaporação da lágrima, oferecem uma superfície ótica regular para a córnea, agem como barreira contra partículas e ainda promovem uma oclusão perfeita das pálpebras quando fechadas. Logo, qualquer disparidade em qualquer uma dessas funções pode causar blefarite.

São causas mais observadas em:

Crianças Irritativas e infecciosas
Adolescentes Seborreica
Adultos Associadas a doenças sistêmicas e/ou disfunção das Glândulas de Meibomius

Sinais e sintomas da blefarite

  • Fotofobia leve;
  • turvação visual;
  • prurido;
  • queimação;
  • lacrimejamento;
  • sensação de areia;
  • hiperemia das margens palpebrais e formação de crostas.

Tratamento

Infelizmente, a blefarite não tem um tratamento definitivo. Logo, tanto o paciente quanto o médico precisam entender a complexidade e cronicidade dessa condição, e da multifacetada abordagem frequentemente necessária para controlá-la.

O tratamento, em si, tem como objetivo a resolução da fase aguda e prevenção de possíveis novas crises, reestabelecendo ao máximo a função das margens palpebrais.

Assim, ele pode ser feito por meio de:

  • Limpeza das margens palpebrais diariamente: existe no mercado produtos específicos para este fim, como Blephagel®, Primorgel® e Systane lid wipes®;
  • Compressa quente (45° C) durante 4 minutos diariamente;
  • Limpeza das margens palpebrais semanalmente com Óleo de Melaleuca (Tea tree oil), principalmente nos casos onde forem observadas a presença de Demodex Folliculorum;
  • Uso de colírio lubrificante ocular, nos casos associados a Olho Seco, diariamente;
  • Suplementos alimentares: ômega 3 por 1 ano (ou conforme orientações do médico assistente).

Na fase aguda (sintomática), costumam ser acrescentados:

  • Antibióticos:
    • Uso tópico: colírios e pomadas combinadas (antibióticos com corticoides), que devem ser por pequeno período e menos potentes quanto possível, visto que os corticoides podem causar: elevação da pressão intra ocular, formação de catarata, atrofias, telangiectasias, fragilidade vascular, hipopigmentação local entre outros.
    • Uso oral: geralmente em blefarite posterior.
  • Doxiciclina.
  • Azitromicina.

Nos casos mais graves e refratários

Inibidores de Calcineurina:

  • ciclosporina (emulsão oftálmica);
  • tacrolimo (pomada).

São agentes imunomoduladores que têm sido utilizados nas Blefarites devido a suas habilidades de reduzir a inflamação sem os efeitos adversos dos corticoides.

Porém, apresentam significativo índice de descontinuação do tratamento, principalmente devido ao quadro de ardência e prurido logo após a aplicação.

Desta forma, os pacientes devem ser orientados de que estes sintomas, geralmente, duram cerca de 1 hora após a aplicação e tendem a diminuir ao final de 1 semana do tratamento.

Tratamento Intervencionista

  • Pulsação térmica (LipiFlow®): dispositivo que fornece 12 minutos de calor e pressão pulsátil para as Glândulas de Meibomius em um esforço para aliviar a obstrução.
  • Luz pulsada: tem sido usada para tratar muitas dermo-condições e demonstrou melhora na secreção das Glândulas de Meibomius.

Obs: os dados são encorajadores, mas estes procedimentos estão atualmente nos estágios iniciais de aplicação e os equipamentos utilizados para estas terapias são caros.